sexta-feira

O futuro pode ser a melhor fase da sua vida

"Vamos lá, precisamos de atores maduros, 70 anos em diante. Quatro homens e quatro mulheres. Você sabe o espírito: homens e mulheres sorridentes, gente feliz."
"Conseguimos esses aqui, veja as fotos."
"Ótimo, na quarta-feira a gente grava."

(...)

"Sr. Astolfo, vamos lá? O senhor se ajoelha ali junto da calçada e atira a bolinha de gude nas outras. Você, dona Mirtes, fica do lado dele olhando e sorrindo, ok?"
"Mas vai me doer a coluna. Não consigo ajoelhar. Ontem eu passei a tarde inteira na fila, o meu ciático tá pegando brabo, viu?"
"TROCA, TROCA! Qual é o nome daquele outro? O moreno? Seu Marlon? Ei, seu Marlon, vem cá. O sr. consegue ajoelhar?"
"Claro que consigo. Eu joguei no Furacão de Curitiba na década de 40, fomos campeões em 43, 45 e 49. Comecei a carreira no Guarani de Ponta Grossa. Jogava pela meia-direita, mas naquela época não era meia que falava não, era half. Eu era half, entende, rapaz? Tinha uma saúde de touro, nunca me machuquei. Em 51 o time se encontrou com o presidente Vargas e eu tenho aqui a foto. Tá vendo esse aqui no fundo? Tá vendo?"
"Ok, ok, meus parabéns muito bom. Então vamos ensaiar só uma vez. Vai lá, seu Marlon, ajoelha aí e atira a bolinha de gude na outra. Lá de cima da janela aquele outro senhor que eu esqueci o nome vai jogar um saco com água na cabeça de vocês. Vamos sorrir, dona Mirtes! Vocês voltaram a ser crianças."
"Mas como eu vou sorrir se ele vai jogar água na minha cabeça? Se pegar uma friagem vou ficar doente, filho. Nasci às duas da manhã do dia 23 de julho de 1929, na casa da minha mãe, no Brás. Naquela época as pessoas nasciam em casa, sabe? Nessa idade em que eu estou qualquer friagem pode acabar com a gente. Tenho que tomar tudo isso aqui de remédio todo santo dia, até ganhei uma caixinha da minha nora que marca a hora de tomar os comprimidos, tá vendo? Gasto 400 reais todo mês com remédio, e aí a gente tem que fazer esses comerciais pra complementar a pensão."
"PUTA QUE PARIU. Vamos fazer assim: ele joga a porra da bexiga de água só na cabeça desse senhor aqui, e a senhora só tem que ficar olhando e sorrindo. Será que a senhora consegue fazer isso?"
"Tudo bem, meu filho".

(...)

"Ontem foi foda, mas vamos em frente. Onde você achou esses atores? Só dá cagada. Cadê os velhos de hoje? Vamos fazer a cena da campainha."
"Ok, vou ali buscar eles e já volto."

"É o seguinte pessoal: tudo bem? vocês têm que fazer aquela brincadeira de apertar a campainha da casa e sair correndo, como faziam quando eram crianças. Tudo bem? Você aí que está com o pente no bolso, como é seu nome? Ok, seu Brito, você vai apertar a campainha e vocês todos ficam atrás dele. Depois que ele apertar a campainha, todo mundo sai correndo, e todo mundo sorrindo, entendido?"
"Mas moço..."
"O que foi, senhora?"
"Meu nome é Gerda. É que desde que eu operei a bacia, não consigo mais correr muito bem. Quer dizer, eu consigo correr mas sinto um pouco de dor. O médico recomendou usar o andador, mas meu neto chegou em casa bêbado outro dia e atropelou o andador com o carro. Precisa ver que judiação, entortou todos os tubos do andador. Na minha época não tinha essa falta de respeito dos filhos com os pais e quem fazia arte apanhava com a vara de marmelo. Sabe o que meu genro fez? Não fez nada! Não é porque o menino está na faculdade que não merece um corretivo"
"A senhora então anda rápido. Anda rápido, entendeu? Faz como puder. VAMOS GRAVAR LOGO ESTA PORRA."
"Mas diretor, eu estive aqui pensando: que mensagem vamos passar para as crianças fazendo uma coisa dessas? Tocar a campainha e sair correndo é uma coisa muito feia. Temos de transmitir aos mais novos não só a alegria de viver na melhor idade, com uma aposentadoria tranquila, o que é a proposta deste anúncio, mas também temos de deixar claras nossas opiniões quanto ao que é bom e adequado para o convívio em sociedade. Sou escritor, tenho larga experiência em expressar idéias, publiquei três livros de poesia."
"MAS QUE MERDA! Onde você arrumou o nosso Carlos Drummond de Andrade aqui? VOCÊS VÃO TODOS À PUTA QUE O PARIU. Toma, você dirige essa merda. Eu estou fora. Meu cabelo já está ficando branco, está vendo? Está vendo, caralho?"

Um comentário:

Alciana Paulino disse...

Este texto é sensasional! Batrátil, estrogonoficamente sensível!

Parabéns!